A história da língua inglesa desde Shakespeare

Curiosidades e transformações de um dos idiomas mais falados no mundo

Stratford Upon Avon
Foto: VisitEngland/jameskerr.co.uk


Quando costumo viajar, sempre tento me atentar aos detalhes dos hábitos dos moradores nativos, de seus maneirismos e cultura, especialmente a local. Reparar nisso abre um mundo de possibilidades para entrar em contato e descobrir um pouco mais da história daquele lugar.

Algo que me intriga muito é como os idiomas mudam de tempos em tempos. Interações com outras culturas ajudaram a catalisar essa mudança, trazendo novos sistemas de significação de acordo com o ambiente no qual aquela língua nasceu. Os dialetos e maneirismos locais acabam nos fazendo enxergar certas palavras ou descrições de diversas maneiras, por exemplo, você sabia que os esquimós possuem 50 palavras para descrever a neve? O ambiente à nossa volta transforma o jeito que a gente percebe as coisas, e conviver com certas experiências, objetos, ou ambientes de uma maneira prolongada nos abre a visão para detalhes que antes ignorávamos.

Palavras mudam de significado, ou são substituídas por outras completamente diferentes, apenas por soarem mais adequadas. Apenas conseguimos perceber a necessidade dessa mudança quando nos atentamos minuciosamente àquilo que nos rodeia.

Foto: Pixabay

A história da língua inglesa, uma das mais faladas no mundo, não é muito diferente. Muitas palavras que são utilizadas hoje em dia não existiam antigamente, enquanto outras haviam sido esquecidas durante um longo período, caindo em desuso por causa da baixa aderência a elas. Muitos termos, de tão específicos a certas tribos e atividades, apenas não possuem o volume para se manterem, sendo pouco a pouco deixadas de lado por algo mais conveniente – outras palavras são apenas esquecidas, e nunca mais vistas.

O que faz algumas delas retornarem, então? A literatura e a poesia, é claro! Os poetas, escritores, historiadores e novelistas são os grandes responsáveis disso. É a necessidade de registrar as atividades do dia a dia, de providenciar maior profundidade às experiências e interações que muitos consideram corriqueiras que levam ao encontro de novos termos para descrever uma variação específica daquele sentimento. Através da literatura, a vida ganha profundidade; através da vida, a literatura ganha temas dos quais discorrer, analisar, romantizar e retratar da maneira que o autor perceber e desejar reproduzir.

Stratford Upon Avon – Cidade de Shakespeare na Inglaterra
Foto: Pixabay

Shakespeare é um dos expoentes em termos de resgate e criação; a ele são atribuídos mais de 2,000 novos termos e dizeres, incluindo ressurreições de palavras caídas em desuso. A palavra “hue” ficou obsoleta até o século 16, sendo retomada como sinônimo rebuscado para cores. Para exemplificar a extensão do vocabulário do bardo, imagine isso: foram utilizadas entre 5 e 6 mil palavras para escrever o Velho Testamento; o poeta Milton, usou ao redor de 8 mil em todas as suas criações literárias. Já, em todas as obras de Shakespeare foram utilizadas mais de 15 mil palavras, sendo grande parte delas inventadas por ele, mesclando palavras existentes e traduzindo para o inglês os termos de outros idiomas. Ao autor é relacionada uma criatividade em prol da expressão, na qual a liberdade poética era utilizada para conseguir ser mais exato na sua descrição, tirando qualquer ambiguidade do que estava sendo sentido por seus personagens, ou as cores que ambientaram os cenários de suas peças.

Visitando A Casa de Shakespeare – Stratford Upon Avon

Não é possível saber exatamente o motivo pelo qual o autor criou tantos novos vocábulos, mas a riqueza das expressões por ele criadas buscava extrapolar o significado muitas vezes da palavra em si. Não era suficiente sentir inveja; para Shakespeare, a inveja se mostrava como um monstro de olhos verdes. O seu trabalho se voltou muito mais para o incremento semântico das palavras usadas para descrever as atividades e sensações do dia a dia.

MAS AFINAL, O QUE MUDOU NA LÍNGUA INGLESA?

Naquela época as palavras eram utilizadas figurativamente, com “meat” significando alimentação como um todo, e “clever” sendo utilizado para qualquer coisa que fosse do agrado da pessoa, sem significado propriamente definido. O camponês daquela época utilizava apenas 300 palavras para descrever suas experiências diárias. Imagina se em todas as minhas dicas e guias de viagem eu utilizasse apenas essa variedade de palavras para descrever os lugares pelos quais eu passo? Seria impossível!

Inglaterra
Foto:VisitEngland/Visit Wiltshire/Chris Lock

Aprender novas línguas ajuda, e muito! Não é apenas uma questão de comunicação verbal, mas de entender a maneira como aquela cultura sente, absorve, e se comunica. A maior vantagem de aprender idiomas e dizeres locais é poder interagir com as pessoas do lugar que você está visitando, mas entender a maneira como eles pensam é o que nos torna verdadeiramente globais.

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